Agora, contentes como ratos, os conselheiros errantes movimentavam-se na zona confusa, luzidios. As pilhas em botão cantavam-lhes ao ouvido, envolvendo-os em primavera.
quinta-feira, 22 de março de 2012
8º ilustração
Pior, infinitamente pior, estavam os conselheiros, que não descobriam onde se haviam de meter. Segredavam pelos cantos, sacudiam as penas, cheios de remorsos por terem tido a infeliz ideia de pôr outro imperador no trono.
(…) os conselheiros só gostavam de saber se o Mestre iria resistir à notícia de ter sido substituído. Sinceramente que receavam.(…)
(…) Quando Dinausauros, o Magnífico, acordou e se viu rodeado dos fidalgos habituais, a primeira coisa que fez foi pedir um espelho.(…)
(…)Alguns caminhavam em arco por causa do peso das medalhas. E todos, sem excepção, estavam completamente surdos (e esse era o preço, a cicatriz das batalhas travadas à volta daquela mesa sob o riBOMBAAAR dos discursos do Mestre no gabinete ao lado). Vinham, tronavam a afirmar, por obediência à ordem.
7º ilustração
Douktor Dinaossaurus, na sua inocência de ouvido, não podia ser acusado de provocar a desordem dos vizinhos à porta fechada.(...)
(...)
De braço no ar, investiu contra a palavra, pronto a destroçá-la. Viu-a passar no círculo, singrando, explodindo, renascendo, enquanto a fita de registos anotava:
ORMED...OREDM...DEROM...MORED...
(...)
sinal, ponto, seta------- MORDE
Morde?, perguntou o Imperador em voz alta, deitando as unhas à fita de papel. Morde o quê?(...)
sinal, ponto,seta-------MEDO
Aqui o enorme Dinaussauro enfureceu-se.(...)
MEDO...RRR...
MEDOR....OREDM...
ODREM...ODREM...
RRRRRRRRRRRRRRRRRRR
sinal, ponto,seta-------ORDEM
6ª ilustração
De camaroeiro em punho meteu-se a pescar vírgulas nas prosas mais turvas; lançou-se atrás do til, essa borboleta, e do trema em lantejoulas; distribuiu hífenes, colocou-os com o cuidado com que se abrem cancelas no terreno selvagem das orações confusas. Ao sinal de parágrafo, minúsculo hipocampo entre folhas amortalhado, pô-lo a embelezar com abundância os decretos-leis da sua predilecção (…)
(…)o Mestre criara bossas nas costas e como escrevia em largos comprimentos de onda para alô-mundos, murmurando as palavras, roendo-as ao correr da caneta, os lábios foram desaparecendo, sugados. A boca ficou em ferida, os dentes em escama-um bicho.
“JESUS, COMO TU MUDASTE”
diria a mão se fosse viva.
Também a mão direita, essa que na estátua aparecia serena e purificada como a dos bispos, também a mão estava destruída, percebia-se agora. Tinha ganho uma data de calos, nós da caneta; os dedos afilaram-se em garra e acabou por não ser mão nem ser nada, mas um molho de raízes penduradas na extremidade de um braço que lhe dava pelos joelhos. Só os olhos continuavam vivos, treinadíssimos em espiar segundos sentidos, dois carvões de diamante.
(…)
Surge-nos assim o Mestre, a crescer e a libertar-se da sua forma humana. Monstro de sapiência (...)
5ª ilustração
O que parece desde já indiscutível é que o dê-erre, D-R, DR, DR. Herr, Herr D, Senhor D ou Senhor Dom- o dê-erre, tal como aparece na Comarca do Doutores- tem a sua origem no campo. Distingue-se facilmente dos restantes mexilhões pelo porte do contentinho consigo próprio, pelos tons escuros com que reveste o corpo e pelo cantar inconfundível, que é esdrúxulo e entremeado de gargarejos. (…)
(…) ricos serão sempre camponeses por mais que disfarcem (…) solenidade difusa (…) Hoje está historicamente provado que os dê-erres eram dotados de grande instinto gregário. Se bem que de uma voracidade rancorosa, davam provas de apreciável sentido colectivo na luta contra as maiorias dos mexilhões, dominando-as pelo cantar gargarejado com manobras de ponto e vírgula. Assinavam com DR. Sempre com DR, fizesse sol ou tempestade. Transformaram essa marca no entre- parênteses do seu nome e não podiam dispensá-la ao telefone, no tom da voz, no barbeiro e na família, e nas iniciais do pijama.
4ª ilustração
Acocoravam-se nas tocas e nas dobras das montanhas para deixar passar a ventania, pareciam calhaus, seres empedernidos; depois voltavam ao trabalho, à semente que se enterra e ao fruto que se arranca (...)
(…) Uma vez ali, ou entregavam o corpo aos caranguejos ou faziam como o mexilhão: pé na rocha e força contra a maré. Daí, o nome de Reino do Mexilhão que lhe pôs a geografia em homenagem (homenagem?) a esse marisco mais que todos humilde, só tripa e casca.
“QUANDO O MAR BATE NA ROCHA QUEM SE LIXA É O MEXILHÃO”
Criatura (porque o é), criatura à margem, mirrada, coisa pequena; bicho que se alimenta de água e sal, do sumo da pedra, ou de milagres, quem sabe- o mexilhão, oh vida, tem a ciência certa dos anónimos: pensa e não fala, vai por si. Se virou costas à terra, foi por culpa dos doutores do interior (dê-erres, assim chamados) e da conversa em bacharel com que atacavam; unicamente por cansaço, desinteresse. Na sua condição de habitante do litoral era com oceano que desabafava, levava os dias a medir o infinito e a resmoer o seu ditado preferido: Quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão.
(…) viam-se obrigados a fazer parede para não irem ao mar. Oh, vida.
Ao cabo de largos anos de experiência estes camponeses pendurados nas falésias, mexilhões no legítimo sentido, tinham criado pé (…)
3ª ilustração
Benzeu-se e seguiu jornada. Depois andou, andou, até que foi dar a um largozinho solitário onde o esperava um enorme crucifixo. Aí, pausa: primeira estação. Ajoelhou, como era seu dever, pedindo imediatamente muitos triunfos para os estudos, memória e disciplina. (…)
Fez sinal aos pais para que não se assustarem e humildemente baixou a cabeça. Raparam-lhe. Segunda estação.
2ª Ilustração
De apeadeiro em apeadeiro apareciam rapazinhos descalços e de arco na mão a festejar a camioneta. Alguns penduravam-se na escada da retaguarda que dava para o tejadilho; outros riscavam bonecos no pó que cobria os guarda-lamas; outros, ainda, espreitavam lá para dentro, para os passageiros, e fugiam a rir, envergonhados; e havia sempre um que punha a mão no radiador para o sentir a trepidar de calor e cansaço. Era a velha carripana (…) os rapazito, aqueles diabos, corriam a acompanhá-la, rindo e acenando com os braços como se a camioneta, lá no íntimo, tivesse passado ali só para os desafiar para uma reinação qualquer através dos montes e dos povoados e por esses mundos dos além. Acabavam, bem entendido, por ficar para trás, suspensos numa nuvem de poeira enquanto o calhambeque ia galgando covas e penedos, a assoprar, a assoprar.
Dinossauro Excelentíssimo_ 1ª ilustração
Supõe-se, está vagamente escrito, que esse imperador veio realmente do nada. Que nasceu algures numa choupana, filho de gente-nada ou pouca-coisa, camponeses ao desabrigo. Que muito possivelmente estudou por cartilhas de aldeia; por catecismos, também. Mais: a acreditar nos compêndios das escolas, teria vindo ao mundo iluminado por Deus(…).
Teria tido infância? Mistério: nesse ponto os cronistas tropeçam no aparo e saltam uns anos. Limitam-se a afirmar que já em criança tinha a marca inconfundível dos chefes.
terça-feira, 20 de março de 2012
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