quinta-feira, 22 de março de 2012

4ª ilustração


Acocoravam-se nas tocas e nas dobras das montanhas para deixar passar a ventania, pareciam calhaus, seres empedernidos; depois voltavam ao trabalho, à semente que se enterra e ao fruto que se arranca (...)

(…) Uma vez ali, ou entregavam o corpo aos caranguejos ou faziam como o mexilhão: pé na rocha e força contra a maré. Daí, o nome de Reino do Mexilhão que lhe pôs a geografia em homenagem (homenagem?) a esse marisco mais que todos humilde, só tripa e casca.
“QUANDO O MAR BATE NA ROCHA QUEM SE LIXA É O MEXILHÃO”
Criatura (porque o é), criatura à margem, mirrada, coisa pequena; bicho que se alimenta de água e sal, do sumo da pedra, ou de milagres, quem sabe- o mexilhão, oh vida, tem a ciência certa dos anónimos: pensa e não fala, vai por si. Se virou costas à terra, foi por culpa dos doutores do interior (dê-erres, assim chamados) e da conversa em bacharel com que atacavam; unicamente por cansaço, desinteresse. Na sua condição de habitante do litoral era com oceano que desabafava, levava os dias a medir o infinito e a resmoer o seu ditado preferido: Quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão.
(…) viam-se obrigados a fazer parede para não irem ao mar. Oh, vida.
Ao cabo de largos anos de experiência estes camponeses pendurados nas falésias, mexilhões no legítimo sentido, tinham criado pé (…)

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