quinta-feira, 22 de março de 2012

6ª ilustração

De camaroeiro em punho meteu-se a pescar vírgulas nas prosas mais turvas; lançou-se atrás do til, essa borboleta, e do trema em lantejoulas; distribuiu hífenes, colocou-os com o cuidado com que se abrem cancelas no terreno selvagem das orações confusas. Ao sinal de parágrafo, minúsculo hipocampo entre folhas amortalhado, pô-lo a embelezar com abundância os decretos-leis da sua predilecção (…)
 (…)o Mestre criara bossas nas costas e como escrevia em largos comprimentos de onda para alô-mundos, murmurando as palavras, roendo-as ao correr da caneta, os lábios foram desaparecendo, sugados. A boca ficou em ferida, os dentes em escama-um bicho.
“JESUS, COMO TU MUDASTE”
diria a mão se fosse viva.
Também a mão direita, essa que na estátua aparecia serena e purificada como a dos bispos, também a mão estava destruída, percebia-se agora. Tinha ganho uma data de calos, nós da caneta; os dedos afilaram-se em garra e acabou por não ser mão nem ser nada, mas um molho de raízes penduradas na extremidade de um braço que lhe dava pelos joelhos. Só os olhos continuavam vivos, treinadíssimos em espiar segundos sentidos, dois carvões de diamante.
(…)
Surge-nos assim o Mestre, a crescer e a libertar-se da sua forma humana. Monstro de sapiência (...)

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